Ligeireza e esquizofrenia jornalística

17 01 2008

Curioso como uma opinião pode mudar tão depressa. O jornalista Davide Pinheiro escreveu, no mesmo dia, duas interpretações diametralmente opostas sobre o concerto de Jorge Palma.

Neste link podemos aceder aos textos que me refiro.

         Mário Bettencourt Resendes, provedor do leitor do DN escreve no seu artigo de opinião do dia 8 de Dezembro intitulado “ À hora do fecho desta edição, o concerto estava óptimo” sobre a visão que os nossos jornais têm em relação à internet, como “inimigo a abater”, em alusão ao argumento da subdirectora do DN, Catarina Carvalho de que “em mais um caso, a Internet levou a melhor”.

“A internet levará sempre a melhor”, considera o jornalista, “no que toca à concorrência directa com a imprensa”.

         Levantam-se, a propósito destas duas notícias que, nunca é demais lembrar, foram escritas pelo mesmo jornalista, no mesmo dia, duas questões:

A primeira questão é se a imprensa vai continuar a fazer sentido e, até mesmo a existir. É uma questão que tem sido levantada e que a mim não deixa grandes dúvidas. A imprensa vai continuar a existir, sim.

O público fiel ao jornal, embora decrescendo, existirá sempre, uma vez que é nos jornais que temos acesso a notícias com mais detalhe, rigor e, se escolhermos bem o jornal, com maior pertinência.

Parece-me um falso problema, embora seja inquestionável que os jornais terão que se adaptar às alterações que a internet impõe. Se olharmos para o exemplo do jornal inglês “The Guardian”, temos um caso de perfeita harmonia entre os dois meios. Os leitores do jornal em papel mantiveram-se fiéis e o jornal ganhou um novo público, que tem acesso às notícias na versão integral, de modo gratuito.

Se o grande inconveniente do jornal será apresentar notícias a que o leitor já teve acesso na internet ou na televisão, na hora exacta em que ocorreu, a vertente on-line do jornal suprime essa lacuna com as “notícias na hora”.

A solução estará nos apoios financeiros, como patrocinadores para o site, parece-me.

A bem daquele que é, para mim, o meio de comunicação mais completo e onde gostava de trabalhar, espero que o jornal se consiga adaptar às exigências de um cidadão cada vez mais consumidor de informação mas, não por isso muito mais conhecedor da realidade.

A outra questão é a da ligeireza com que as notícias são tratadas. Talvez seja pela emergência deste público consumidor de notícias na hora, as notícias são, não raras vezes apresentadas com leviandade e sem grande rigor (e que melhor exemplo que o supracitado…).

Uma explicação para este facto poderá ser extraída da entrevista concedida por Daniel Cruzeiro, jornalista da SIC a Dina Morgato, num artigo do Jornal de Notícias de 29 de Dezembro de 2007, intitulado “A investigação é o calcanhar de Aquiles do jornalismo”.

Diz Daniel Cruzeiro: “ O jornalismo está muito dependente dos assessores de imprensa e faz-se uma informação preguiçosa, que já está feita, “take away”. Há também muito jornalismo feito com fontes anónimas. Estamos a tentar inverter um bocadinho isso voltar a trazer as pessoas para a antena, ir ao terreno, recolher histórias. Faz falta o jornalismo que conte histórias, que não fale só do extraordinário, mas do ‘infra ordinário’, o que sustenta a realidade e que diz mais do nosso quotidiano.”

  Resta saber se há espaço e tempo para a investigação jornalística, nos blocos noticiosos a que hoje temos acesso, com muitas notícias mas pouca informação.

            Sites Consultados:

http://mediascopio.wordpress.com/2007/12/29/jornalismo-take-away/

http://dn.sapo.pt/2007/12/08/opiniao/a_hora_fecho_desta_edicao_o_concerto.html

http://www.clubedejornalistas.pt/DesktopDefault.aspx?tabid=1085

http://dn.sapo.pt/2007/11/21/artes/coliseu_encheu_para_celebrar_o_fenom.html

http://diariodigital.sapo.pt/disco_digital/news.asp?section_id=2&id_news=26960





antes era assim…

4 01 2008

“Da censura «a priori» para a censura «a posteriori»?”   

 No regime anterior, o Expresso foi, como se sabe, bastante perseguido. Tivemos diversas denúncias da Direcção-Geral da Informação à Polícia Judiciária, interrogatórios vários, um julgamento. Tivemos pressões de outro género, como inspecções de trabalho incompreensíveis. Tivemos advertências, ameaças, zangas.   

  Para além dos «castigos» frequentes, dos cortes de censura (agravados e complicados pela obrigatoriedade de envio de todas as provas e por dois longos períodos de envio de provas de página) nunca sofremos, no entanto, qualquer sanção. O único julgamento a que conduziram as variadas tentativas de incriminação do poder então constituído terminou com a absolvição do redactor acusado, bem como do chefe de redacção e do director.  

  A multa de 25 contos, que a nova Comissão «ad hoc» para o controle da informação nos aplicou na passada segunda-feira, é, portanto, a primeira sanção que sofremos. O fundamento genérico apresentado é a publicação de notícia falsa. Depois de analisada a notícia – referente à passagem a reserva obrigatória de 105 oficiais da Armada – verificou-se que, em 299 linhas do respectivo texto, nos é apontada uma incorrecção (falta apurar se se trata efectivamente de uma incorrecção) numa parte que ocupa 3 linhas.   

 A palavra falsidade, quando utilizada contra alguém, tem significado ofensivo e pressupõe que alguém agiu com intenção de, usando de falsidade lesar outrem. O Expresso não agiu com essa intenção. Por isso – e por não aceitar os termos e a existência de sanção aplicada – não se conforma e vai recorrer para os tribunais.

(…)    Se determinado facto ou situação não podem ser relatados e interpretados em toda a sua extensão e com todas as consequências, não há liberdade de Imprensa. Se se recriam tabus consoante as conveniências de alguns sectores, não há liberdade de Imprensa. Se se recorre ao Programa do MFA para limitar discricionariamente o direito de expressão nele consagrado, não há liberdade de Imprensa. Se se criam critérios políticos de legalidade não comprovada (e além do mais desconhecida de quem lhes sofre as consequências) para conduzir uma única politica informativa, não há liberdade de Imprensa.  

  E este é o dilema que se torna necessário solucionar em Portugal, no tempo actual. Qual a opinião que prevalece: a da quem faz os jornais ou a de quem os julga e detém poderes para os punir?    

 Durante anos vivemos neste País, submetidos a tutela paternalista da censura prévia. O 25 de Abril veio acabar com o atestado de irresponsabilidade que, entre outras coisas, ela representava. 

   Fartámo-nos de ser chamados irresponsáveis, sensacionalistas, divisionistas, ignorantes, etc. Demonstrámos que não o éramos, quando nos deram a oportunidade de o fazer. A liberdade trouxe a responsabilidade e com ela sabemos viver e trabalhar. 

   A multa aplicada ao Expresso parece, pois, fazer crer que a censura «a priori» se quer passar para a censura «a posteriori» – o que não desejamos nem aceitamos.    

Seria uma falsificação do Programa do MFA – o que não pretendemos nem admitimos (e no que não acreditamos). “

Editorial do jornal Expresso de dia 21 de Setembro de 1974